sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Uma nova cozinheira nasceu!


O curso da Wilma Kovesi tem botado pimenta nos meus neurônios culinários.

Já não sou mais quem já fui no fogão um dia, é verdade.

As técnicas que tenho aprendido não mudaram apenas meu jeito de empunhar a faca, picar uma cebola (brunoise, julienne?) ou girar uma frigideira na boca do fogão. Mudaram o meu corpo: minha língua, minha boca, meu nariz.

Eu tinha um estilo "criança criada por vó em apartamento". Só as comidas confortáveis me agradavam, os molhos fáceis de decifrar, as carnes moles e nobres, os cheiros de orégano e salsinha.

De um tempo pra cá, fui desafiada a botar na boca tudo aquilo que recusei antes, a cheirar miúdos, a eviscerar peixes, a destrinchar aves.

De certa forma, em minha vida pessoal, também botei a mão em vísceras. Mudei o coração de lugar (agora ele foi parar na cabeça) e abri a minha própria barriga para extrair a bile, numa tentativa de retirar de mim qualquer amargura.

Não sou mais a mesma, queridos. Faz tempo que não coloco receitas aqui talvez por isso.
Eu preciso dizer a vocês quem sou e, por isso, minhas panelas estão tímidas ou reticentes.

E eu não sei ainda quem sou. As informações têm chegado, as conversas têm se aprofundado e os desafios me impulsionado de tal forma, que não consigo apenas "dar" uma receita.

O marco divisor de águas nessa história foi o dia que executei uma ostra, espremi limão sobre seu corpinho agonizante e engoli o bichinho e toda a sua história no mar. Eu me tornei, por poucos instantes, a própria ostra, o mar inteiro, aquele espírito libertado (embora morto) de uma Debora-concha que não mora mais aqui.

A carne suculenta e úmida escorregou pela minha garganta, enquanto eu suava quente de medo por um sabor que jamais me permiti. Por uma morte que sempre temi (a minha e a da pobre ostrinha). Segurei no braço de um colega, que não deve ter entendido nada sobre o que acontecia ao seu lado. Eu também era executada naquela hora e engolida por uma garganta desconhecida, entrava no buraco do coelho de Alice.

Para alguns, foi apenas uma aula, um sabor antigo conhecido, uma ideia de prato. Para mim, foi o nascimento de uma nova cozinheira, que não teme mais expor as próprias vísceras ao calor do fogo, que tem coragem.

Cada vez que chego em frente ao fogão, é isso que se processa dentro de mim. E de uma forma paradoxal (oi, estamos falando de mim, sou inteira paradoxos!), não consigo mais executar receitas. Agora eu também entro na panela.

Continuem tendo paciência comigo, prometo que volto, quando já tiver caminhado um pouco mais nessa jornada de auto conhecimento e superação, de gargantas úmidas que me engolem às terças e quintas.

Amor,
Deh